Dois terços dos municípios do Rio Grande do Sul foram afetados pelos eventos extremos deste ano

Cerca de um milhão de hectares de áreas usadas para produção agropecuárias foram afetadas segundo a mais recente nota técnica do MapBiomas, que vem acompanhada por um toolkit para apoiar gestores e técnicos que estão trabalhando na emergência

10 de junho de 2024

Quase dois terços (61%) dos municípios do Rio Grande do Sul foram atingidos, em maior ou menor grau, pelos eventos climáticos extremos de abril e maio deste ano. É o que mostram imagens de vários sistemas de satélite coletadas, analisadas e validadas pelos técnicos do MapBiomas. Ao todo, a área atingida por movimentos de massa, tais como deslizamentos de terra, bem como enxurradas, inundações e alagamentos nos últimos dois meses foi estimada em 15.778 km2 – o equivalente a 5,6% dos 281.748 km2 de extensão do estado. 

Os dados detalhados da extensão por município, tipo de cobertura e uso da terra estão disponíveis no site do MapBiomas, incluindo a planilha de estatísticas e um toolkit de visualização, consulta e download dos mapas desenvolvido para apoiar gestores, técnicos e profissionais que estão trabalhando na emergência.

Um total de 298 municípios tiveram pelo menos 1% do territorio afetado pelos eventos extremos dos últimos dois meses.  Destes, 73 municípios tiveram mais de 10% do território atingido, sendo 34 com mais de 20%. No caso de Nova Santa Rita e Canoas, mais da metade: 52,5% e 50,1%, respectivamente.

Os dados mostram que áreas usadas pela produção agropecuária do estado foram as mais afetadas: mais de um milhão de hectares, ou 64,2% do total ocupado por essas atividades no Rio Grande do Sul. Quase 20% de formações campestres também foram atingidas. 

Dos 497 municípios do Rio Grande do Sul, 234 tiveram sua área urbana atingida. Dois terços deles (67%, ou 158 municípios) tiveram menos de 1% de suas áreas urbanizadas atingidas.  Em um caso – Eldorado do Sul – a  área afetada superou 66%. Em Mampituba foram 49,5% e em Canoas, 42,4%. Em relação à totalidade do território afetado no estado, 0,8% corresponde a áreas urbanizadas. Mas quando se olha para a totalidade da área urbanizada do Rio Grande do Sul, 5% foram atingidos. 

O mapeamento da área atingida foi elaborado a partir do processamento e análise de imagens de satélites, obtidas por sensores óticos e de radar, em um período anterior e imediatamente após os eventos de precipitação severa. O mapa da área atingida foi depois sobreposto ao mapa de cobertura e uso da terra da coleção Beta MapBiomas 10 metros, do ano de 2022, para identificar e calcular a extensão das classes de cobertura e uso na área atingida. O resultado são dados em vários recortes espaciais (estado, bacia hidrográfica, bioma e município) que fornecem informações úteis para avaliação e tomada de decisão com relação às áreas atingidas e para a definição de ações em vários horizontes de prazo.

Os técnicos do MapBiomas alertam que esses dados podem apresentar limitações decorrentes do método e das características das fontes de dados utilizadas, tais como imagens de satélite com diferente resolução espacial, por exemplo. Por isso, a extensão atingida pode estar superestimada em alguns pontos, especialmente em algumas áreas rurais mais altas, onde solos temporariamente saturados foram incluídos devido à resposta similar à de uma lâmina d’água. Já no caso das áreas urbanas, os números podem estar subestimados devido à dificuldade de detecção da presença de lâmina d’água em meio às edificações. No caso das áreas inundadas no sul do estado, os números podem estar defasados porque o maior nível ocorreu após o período de coleta das imagens utilizadas. 

A nota técnica do MapBiomas destaca também que  eventos extremos, como vendavais e precipitações intensas, são mais frequentes no Rio Grande do Sul durante as estações de transição, como primavera e outono. Projeções do Painel Intergovernamental sobre Mudança do Clima-IPCC  indicam tendência de aumento na precipitação e na frequência de eventos severos. As normais climatológicas do INMET dos períodos de 1961-1990 e de 1991-2020 confirmam que praticamente todas as regiões do estado já apresentaram mudanças nessa direção, algumas delas com até 300 mm de aumento na precipitação anual entre os dois períodos. 

A nota lembra ainda que o clima do Rio Grande do Sul também sofre influência dos fenômenos El Niño e La Niña, que provocam variabilidade interanual acentuada, principalmente na precipitação. Em anos sob influência de La Niña tende a haver redução na precipitação e ocorrência de estiagens; em anos de El Niño, as precipitações tendem a ocorrer em maior volume e intensidade, podendo chover em um único dia o equivalente à média mensal. Foi o que se viu durante o El Niño mais recente, quando ocorreram quatro eventos de precipitações severas no Rio Grande do Sul: junho de 2023, no Vale do Rio dos Sinos e no Litoral Norte; setembro de 2023, no Vale do Rio Taquari-Antas; novembro de 2023, nos vales dos rios Taquari-Antas e Caí, na Serra Gaúcha e na Região Metropolitana; e abril-maio de 2024, abrangendo praticamente todo o estado. 

As chuvas do último evento foram extremas tanto em volume quanto em intensidade. Registros de pluviômetros da ANA, CEMADEN e INMET superaram 500 mm em duas semanas em boa parte do Rio Grande do Sul, e totalizaram mais de 1.000 mm em alguns locais. O enorme volume precipitado em curto período de tempo provocou movimentos de massa e cheias rápidas e com grande subida do nível dos rios nas regiões de serra, e inundações prolongadas e de grande extensão nas regiões mais baixas.